Ninguém leu os textos, então a discussão propriamente dita ficou para os últimos 30 minutos da aula, depois que eu já os tivesse inteirado do assunto. Mas no início da aula, quando eu apenas dava avisos, procurava horários alternativos para uma aula, prometia um ponto extra para quem fizesse um exercício mais aprofundado, aí uma sede insaciável de discutir regras aparecia. Por que?
Não sei. A parte mais importante de meu trabalho é identificar o que chamo de nós do aprendizado: aquelas barreiras culturais que impedem um grupo de alunos de seguir adiante em sua busca pelo conhecimento. Qual a barreira? Como a detonar? Como encorajar os alunos a ultrapassá-la depois da explosão? É trabalho duro, trabalho de general corajoso que enfrenta campo minado para mostrar o caminho mais seguro.
Eu não sei exatamente como explodir a barreira, mas acho que já a identifiquei: a obsessão pelas regras. Um ponto a mais para alguém que vai fazer a observação em S. Paulo, e não no Interior? Como assim? E meus direitos? Minha garantia que ninguém vai sair na frente na corrida da vida apenas porque decidiu fazer algo além do mínimo necessário? Vamos discutir as regras. A observação em si ficará em segundo plano. Se ela será enriquecida pela diversidade de perspectivas, ou se o ponto a mais até me servirá de estímulo para fazer um trabalho melhor, não importa. As regras.
Cheguei tarde, não participei da aula, intimidei a professora exigindo minha presença, mas tenho os meus direitos. Quero a justiça de não ser prejudicado por não vir à aula ou por cometer plágio. É isso que se debate, com seriedade e empenho. Os desafios enfrentados pelo indivíduo diante da globalização, tema do meu curso, viram até uma brincadeira, uma coisa divertida e leve, eu falo de minhas sobrinhas que fazem parte do fenômeno Harry Potter, e depois digo que na segunda parte do curso vamos discutir a censura do YouTube, vocês sabem, a Cicarelli, e tudo fica leve e interessante, não chegamos a debater nada.
As regras nos fazem ranger o dentes.
É por elas que nos debatemos, nós, talvez, brasileiros? nós funcionários públicos?
Nós incertos quanto a elas, quanto ao nosso dever de cumpri-las, quanto à nossa obrigação constitucional de burlá-las. Nós um pouco Marcola, como o aluno que me intimidou, à noite, cansada, estremeci por dentro, cedi. Nós um pouco Gabeira, indignados, errados, derrotados nos nossos sonhos errados e depois novamente nos sonhos certos. Nós Genoíno, indefinido, escondido, sem orgulho dos erros mas sem nada que pareça um arrependimento tampouco. Nós Zélia, pioneira, que abriu as portas para a entrada das mulheres na desonestidade pública, quando antes estávamos confinadas, nessa área, à esfera privada. Nós Delcídio, ambíguo, nós Serraglio, cumprindo o papel de modo correto, sem desvios, sem esperança tampouco.
Esse embate com as regras parece significar muito. Que regras? Valem para quem? O que significam? Para que cumprir, e para que ignorar? Elas nos ajudam a caminhar, ou vamos construir nosso mundo como se elas fossem, como se elas, e não nossos verdadeiros problemas, fossem a barreira a ser destruída?
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Um pequeno mundo
Às vezes também entramos nós numa sala com vontade de escutar e aprender. E como para nossos alunos, não é apenas a matéria apresentada que nos atrai.
Então entrei na sala onde iriam discutir a contribuição da escola de Columbia à sociologia. Era a segunda palestra do Professor Katz que eu via, então já parecia bajulação. Que parecesse; um pouco era mesmo, e a bajulação era uma boa desculpa para meu verdadeiro interesse, a mente daquele velho judeu que continuava a pensar sobre o mundo.
Então foi em Columbia que se reuniram os refugiados alemães, e passaram a fazer aqueles estudos sobre mídia. Não que se interessassem pela mídia, apenas pelo modo como as pessoas tomam decisão. Coca ou pepsi, ABC ou NBC, não importava. Mas como as pessoas decidem, quem influencia quem, o que fazem com o que lêem ou escutam? Perguntas perenes. Criaram um centro para captar recursos das grandes empresas, uma precursora de nossas Fipes. E depois colocavam os alunos de pós em empregos nos departamentos de pesquisa dessas mesmas empresas, quem influencia quem?
Anos 50, grandes progressos.
Mandaram o Adorno pesquisar a música de rádio. Mas, disse o Katz, ele não gostava do rádio, achava que não se ouvia bem nos aparelhos. E não gostava das músicas, deviam tocar Schoenberg! Então não deu certo, e essa foi a briga entre Adorno e Lazarfeld. Aí o palestrante mais novo disse que a cooperação não foi tão desastrosa, e que Adorno ensinou, de volta a Frankfurt, as técnicas de pesquisa aprendidas em Columbia.
Mas isso não era acurado, de acordo com um velho alemão sentado atrás de mim que levantou a mão e disse: “Professor Adorno não ensinou técnicas de pesquisa em Frankfurt; apenas seus assistentes o fizeram, pois o Instituto se preocupava com a capacidade de seus alunos de encontrar bons empregos.”
Recado dado, informação corrigida, missão cumprida. A fotografia de um geração que, por escolha ou não, construiu seu pequeno mundo, onde se podia brigar por gostar de Schoenberg e sempre haveria espaço para levantar a mão e dizer a verdade, seu pequeno mundo espalhado pelos quatro cantos do globo.
Então entrei na sala onde iriam discutir a contribuição da escola de Columbia à sociologia. Era a segunda palestra do Professor Katz que eu via, então já parecia bajulação. Que parecesse; um pouco era mesmo, e a bajulação era uma boa desculpa para meu verdadeiro interesse, a mente daquele velho judeu que continuava a pensar sobre o mundo.
Então foi em Columbia que se reuniram os refugiados alemães, e passaram a fazer aqueles estudos sobre mídia. Não que se interessassem pela mídia, apenas pelo modo como as pessoas tomam decisão. Coca ou pepsi, ABC ou NBC, não importava. Mas como as pessoas decidem, quem influencia quem, o que fazem com o que lêem ou escutam? Perguntas perenes. Criaram um centro para captar recursos das grandes empresas, uma precursora de nossas Fipes. E depois colocavam os alunos de pós em empregos nos departamentos de pesquisa dessas mesmas empresas, quem influencia quem?
Anos 50, grandes progressos.
Mandaram o Adorno pesquisar a música de rádio. Mas, disse o Katz, ele não gostava do rádio, achava que não se ouvia bem nos aparelhos. E não gostava das músicas, deviam tocar Schoenberg! Então não deu certo, e essa foi a briga entre Adorno e Lazarfeld. Aí o palestrante mais novo disse que a cooperação não foi tão desastrosa, e que Adorno ensinou, de volta a Frankfurt, as técnicas de pesquisa aprendidas em Columbia.
Mas isso não era acurado, de acordo com um velho alemão sentado atrás de mim que levantou a mão e disse: “Professor Adorno não ensinou técnicas de pesquisa em Frankfurt; apenas seus assistentes o fizeram, pois o Instituto se preocupava com a capacidade de seus alunos de encontrar bons empregos.”
Recado dado, informação corrigida, missão cumprida. A fotografia de um geração que, por escolha ou não, construiu seu pequeno mundo, onde se podia brigar por gostar de Schoenberg e sempre haveria espaço para levantar a mão e dizer a verdade, seu pequeno mundo espalhado pelos quatro cantos do globo.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Um professor se vai
Morreu hoje um professor meu, que me deu aulas de psicanalise e filosofia nos anos 80, la na cinemateca em pinheiros. Deu tambem umas outras disciplinas que eu nao sei o nome, daquelas que acabam sendo as mais importantes. Nao e meu primeiro professor que morre, cuja perda me faz ser um pouco menor, um pouco maior.
Ele nao estando aqui, tenho eu alguma obrigacao adicional, algo que eu tenho que incluir agora nos programas?
Vontade de fugir de suas aulas, vontade de nao saber o que e que tem no ovo da serpente. Aula ruim.
Aula boa: Sonata de Outono, a filha esperando o intervalo do ensaio de piano como eu esperava os intervalos das aulas particulares. Bom se ver retratada, bom poder se enxergar, de longe, aprender o que e cinema.
Muitas, mas muitas aulas. Sair rindo de uma exibicao de Persona em Nova York, rindo um pouco desvairada, sem saber por que.
Sair desconcertada de uma producao para a televisao sobre um casal idoso e amargo. Demorar 20 anos para compreender o relogio sem ponteiros. Aula dificil.
Ele nao estando aqui, tenho eu alguma obrigacao adicional, algo que eu tenho que incluir agora nos programas?
Vontade de fugir de suas aulas, vontade de nao saber o que e que tem no ovo da serpente. Aula ruim.
Aula boa: Sonata de Outono, a filha esperando o intervalo do ensaio de piano como eu esperava os intervalos das aulas particulares. Bom se ver retratada, bom poder se enxergar, de longe, aprender o que e cinema.
Muitas, mas muitas aulas. Sair rindo de uma exibicao de Persona em Nova York, rindo um pouco desvairada, sem saber por que.
Sair desconcertada de uma producao para a televisao sobre um casal idoso e amargo. Demorar 20 anos para compreender o relogio sem ponteiros. Aula dificil.
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Férias
O semestre já acabou há um tempo. Ficou na minha cabeça a frase de um garoto citada num dos trabalhos. A situação era essa: Meus alunos bolaram um teatro para uma turma, para despertar os garotos para a importância do Português, e relataram a experiência no trabalho. Os garotos, que achavam gramática um saco, adoraram o teatro. Ao final, um garoto perguntou ao grupo: "posso ficar com o papel?"
Achei tão bonito isso, "posso ficar com o papel?" O garoto descobria naquele exercício a importância do texto, o significado da escrita.
Mas são férias, quem passou, passou. Quem permanece no site são os reprovados, pedindo prazos, apontando injustiças. "Eu não venho nas aulas, não faço os exercícios, escrevo o trabalho de qualquer jeito e você ainda me reprova? Francamente!" Ser professor é um pouco isso, quem dá certo, voa. Te deixa algumas idéias e tchau.
Achei tão bonito isso, "posso ficar com o papel?" O garoto descobria naquele exercício a importância do texto, o significado da escrita.
Mas são férias, quem passou, passou. Quem permanece no site são os reprovados, pedindo prazos, apontando injustiças. "Eu não venho nas aulas, não faço os exercícios, escrevo o trabalho de qualquer jeito e você ainda me reprova? Francamente!" Ser professor é um pouco isso, quem dá certo, voa. Te deixa algumas idéias e tchau.
sábado, 7 de julho de 2007
Conversa com o professor
"Sou eu, a Heloisa." Eu tinha ligado na hora combinada, para que ele me desse dicas num artigo acadêmico.
"Heloisa, meu deus, que coisa mais incrível, eu nunca me acostumo, mundos diferentes conectados num instante!"
"Eu estar ligando para os Estados Unidos não é tanta coisa pra mim, minha família hoje... é americana."
"Mesmo assim, semana que vem estarei na Europa, e acabei de chegar de uma visita a um professor meu, muito idoso, que mora aqui perto..." Não era tanto a distância, então. Era o tempo que se comprimia naquele telefonema.
Falei de minha viagem a Nova York em agosto, contei como era a estrutura do artigo, falei dos projetos, falei da greve. Meu inglês enferrujado, atropelando concordâncias e tropeçando em palavras.
"Quem entrou em greve?"
"Professores, alunos e funcionários." Como assim, todos?, ele deve ter pensado. Se estão todos de acordo, por que não mudam juntos as coisas?
"A greve era pelo quê?"
"Por um decreto" (decreto em inglês soa arcaico, será que é outra palavra?) "do governador que pedia que as contas fossem apresentadas diariamente, e não mensalmente, que foi aprovado em janeiro e que foi ganhando importância com a mobilização dos sindicatos." Sindicato é union, isso eu sei, é union.
Contando isso me perguntei afinal para que a apresentação diária. Um bom relatório anual, na verdade, seria suficiente, com o desempenho de cada faculdade, de cada curso. Quanto se gastou? Quantos se formaram? Os formandos de 2002, estão bem colocados? Quantos professores foram contratados? Quantos estrangeiros buscaram nossa instituição? Um bom relatório anual, publicado na internet, prestando contas.
Continuei: "Aí os alunos da USP invadiram a reitoria, e depois os da Unesp invadiram a sala do diretor, você sabe, uma sala um pouco maior que a minha, e também a cafeteria, não, não é cafeteria." Como se fala copa? "Invadiram a cozinha! Isso, a pequena cozinha onde se faz café para os professores, invadiram. - E aí chamaram a polícia. Isso..."
"Umh?"
"Isso faz sentido?"
"Bem, não. Não faz muito. Mas na universidade essas lutas não fazem sentido sempre. Você estava durante o nosso movimento?"
"A greve de fome?"
"É, também era sobre nada."
"O pior, o pior é que ninguém relaciona a greve dos professores com a invasão e a chamada da polícia. Ninguém."
Agora estávamos num campo conhecido, das coisas óbvias mas tão difíceis de compreender que era o nosso objeto de estudo. Agora, talvez, contando a greve de modo atropelado para alguém tão longe dela, eu pudesse dar-lhe um sentido. Claro, a greve já acabou. Professores retomam brigas interrompidas a respeito da grade horária e alunos rebeldes buscam emprego no departamento de marketing da Coca-Cola. Mas eu encontrava um sentido para meu incômodo e minha vergonha, mesmo que fosse um sentido patético, como disse Scheinkman na Folha.
Não sei se meu professor continua aprendendo algo quando vai visitar seus mestres idosos. Eu penso que continuo aprendendo algo de mim e do que se passa à minha volta - não com suas palestras, mas com sua escuta e com meus próprios esforços em encontrar a palavra certa, a história que faça sentido.
"Heloisa, meu deus, que coisa mais incrível, eu nunca me acostumo, mundos diferentes conectados num instante!"
"Eu estar ligando para os Estados Unidos não é tanta coisa pra mim, minha família hoje... é americana."
"Mesmo assim, semana que vem estarei na Europa, e acabei de chegar de uma visita a um professor meu, muito idoso, que mora aqui perto..." Não era tanto a distância, então. Era o tempo que se comprimia naquele telefonema.
Falei de minha viagem a Nova York em agosto, contei como era a estrutura do artigo, falei dos projetos, falei da greve. Meu inglês enferrujado, atropelando concordâncias e tropeçando em palavras.
"Quem entrou em greve?"
"Professores, alunos e funcionários." Como assim, todos?, ele deve ter pensado. Se estão todos de acordo, por que não mudam juntos as coisas?
"A greve era pelo quê?"
"Por um decreto" (decreto em inglês soa arcaico, será que é outra palavra?) "do governador que pedia que as contas fossem apresentadas diariamente, e não mensalmente, que foi aprovado em janeiro e que foi ganhando importância com a mobilização dos sindicatos." Sindicato é union, isso eu sei, é union.
Contando isso me perguntei afinal para que a apresentação diária. Um bom relatório anual, na verdade, seria suficiente, com o desempenho de cada faculdade, de cada curso. Quanto se gastou? Quantos se formaram? Os formandos de 2002, estão bem colocados? Quantos professores foram contratados? Quantos estrangeiros buscaram nossa instituição? Um bom relatório anual, publicado na internet, prestando contas.
Continuei: "Aí os alunos da USP invadiram a reitoria, e depois os da Unesp invadiram a sala do diretor, você sabe, uma sala um pouco maior que a minha, e também a cafeteria, não, não é cafeteria." Como se fala copa? "Invadiram a cozinha! Isso, a pequena cozinha onde se faz café para os professores, invadiram. - E aí chamaram a polícia. Isso..."
"Umh?"
"Isso faz sentido?"
"Bem, não. Não faz muito. Mas na universidade essas lutas não fazem sentido sempre. Você estava durante o nosso movimento?"
"A greve de fome?"
"É, também era sobre nada."
"O pior, o pior é que ninguém relaciona a greve dos professores com a invasão e a chamada da polícia. Ninguém."
Agora estávamos num campo conhecido, das coisas óbvias mas tão difíceis de compreender que era o nosso objeto de estudo. Agora, talvez, contando a greve de modo atropelado para alguém tão longe dela, eu pudesse dar-lhe um sentido. Claro, a greve já acabou. Professores retomam brigas interrompidas a respeito da grade horária e alunos rebeldes buscam emprego no departamento de marketing da Coca-Cola. Mas eu encontrava um sentido para meu incômodo e minha vergonha, mesmo que fosse um sentido patético, como disse Scheinkman na Folha.
Não sei se meu professor continua aprendendo algo quando vai visitar seus mestres idosos. Eu penso que continuo aprendendo algo de mim e do que se passa à minha volta - não com suas palestras, mas com sua escuta e com meus próprios esforços em encontrar a palavra certa, a história que faça sentido.
quinta-feira, 5 de julho de 2007
A metamorfose
"A professora é hippie." Ela não perguntou nem acusou. Apenas constatou, olhando para minha cara, como se tivesse me visto do avesso. Mimada, rica e preguiçosa, eu não conseguia detestá-la como merecia. "A professora é hippie", ela disse, e uma coisa que eu nem era acabei sendo.
"Hoje só faltou o incenso, hein, professora?", me perguntou um aluno mais simpático uns anos depois, mas aí eu já tinha me conformado com a coisa.
Entre uma frase e outra fui testando minhas hippices, aula no jardim, bolinha de tenis, exercício do olhar e coisa e tal. Num curso de psicologia para administradores públicos, propus à classe estudar a psicologia humana a partir de quem realmente entendia, e não de uns cientistas metidos que apenas repetiam os primeiros em textos ruins. Homero, Shakespeare, Schnitzer, os autores de Genesis, Gogol, esses caras é que entendiam dos dramas humanos. Não iríamos estudar os textos, as técnicas narrativas, mas sim os personagens retratados. Ao final do curso um aluno disse que o que mais o impressionou eram as semelhanças, os mesmos sonhos, os mesmos medos, o mesmo ser humano. Sim, a solidão da Senhorita Else, a liderança desastrosa de Ulisses, o amadurecimento de Telêmaco, a rivalidade entre irmãos, o oportunismo do falso inspetor, tudo isso era de ontem e de hoje, li nos trabalhos dos alunos.
E a metamorfose? Pedi aos alunos que fizessem um teatrinho na aula, em grupos, jogo rápido, escolher uma cena e encená-la para a classe. Um grupo - futuros administradores públicos, lembrem-se - fez a primeiríssima cena, quando o monstruoso inseto tenta erger-se como gente mas consegue apenas balançar as patinhas nervosamente no ar. O aluno deitado na mesa do professor, e víamos as patas, não as pernas, ríamos todos e, talvez, angustiávamo-nos também.
Quase um século antes Kafka lia a metamorfose para os amigos em algum restaurante de Praga, fazendo-os rir. Depois o texto ficou sério com todos os pretenciosos comentários dos críticos, que às vezes detonam o texto e outras vezes valorizam a crítica. Mas naquela sala de aula no interior de São Paulo minha hippice trouxe a metamorfose de volta, nos fazendo rir de nossas angústias modernas.
"Hoje só faltou o incenso, hein, professora?", me perguntou um aluno mais simpático uns anos depois, mas aí eu já tinha me conformado com a coisa.
Entre uma frase e outra fui testando minhas hippices, aula no jardim, bolinha de tenis, exercício do olhar e coisa e tal. Num curso de psicologia para administradores públicos, propus à classe estudar a psicologia humana a partir de quem realmente entendia, e não de uns cientistas metidos que apenas repetiam os primeiros em textos ruins. Homero, Shakespeare, Schnitzer, os autores de Genesis, Gogol, esses caras é que entendiam dos dramas humanos. Não iríamos estudar os textos, as técnicas narrativas, mas sim os personagens retratados. Ao final do curso um aluno disse que o que mais o impressionou eram as semelhanças, os mesmos sonhos, os mesmos medos, o mesmo ser humano. Sim, a solidão da Senhorita Else, a liderança desastrosa de Ulisses, o amadurecimento de Telêmaco, a rivalidade entre irmãos, o oportunismo do falso inspetor, tudo isso era de ontem e de hoje, li nos trabalhos dos alunos.
E a metamorfose? Pedi aos alunos que fizessem um teatrinho na aula, em grupos, jogo rápido, escolher uma cena e encená-la para a classe. Um grupo - futuros administradores públicos, lembrem-se - fez a primeiríssima cena, quando o monstruoso inseto tenta erger-se como gente mas consegue apenas balançar as patinhas nervosamente no ar. O aluno deitado na mesa do professor, e víamos as patas, não as pernas, ríamos todos e, talvez, angustiávamo-nos também.
Quase um século antes Kafka lia a metamorfose para os amigos em algum restaurante de Praga, fazendo-os rir. Depois o texto ficou sério com todos os pretenciosos comentários dos críticos, que às vezes detonam o texto e outras vezes valorizam a crítica. Mas naquela sala de aula no interior de São Paulo minha hippice trouxe a metamorfose de volta, nos fazendo rir de nossas angústias modernas.
Sala de professores
A sala de professores sempre me causou asfixia. "A Heloisa entra muda e sai calada", ouvi de um colega uma vez, reproduzindo o que o chefe de departamento pensava a meu respeito. Gosto de falar de alunos, discutir métodos de ensino, comentar notícias do dia, enfim, do que se faz em salas de professores. Mas a perspectiva de ter que entrar numa sala repleta de gente, "tudo bem? tudo bom?" me afeta a respiração e os batimentos cardíacos. A maior diferença entre ensino público e privado é essa: no ensino público temos uma sala própria.
O final dos cursos é sempre um momento de expectativa para mim. Que os alunos tenham dito que gostaram do curso ou não é menos importante do que a qualidade de seus trabalhos finais. Trabalhos bons me deixam satisfeita; trabalhos fracos esgarçam qualquer elogio. Como virão os trabalhos? Nas apresentações, eles revelarão coisas novas? Saberei fazer críticas que apontem novos caminhos?
"Ah, espero que passe logo a próxima hora."
"Você tem os dois horários?"
"Não, mas é prova. Olha, prefiro aula que prova. Prova, a gente olha no relógio, depois olha denovo e não passou um minuto. É fogo."
Tiro os olhos de meu Péricles, de Atenas, onde me distraio até 5 minutos antes da aula, quando vou esperar na porta a saída do outro professor. Olho para a professora, e pergunto silenciosamente por que ela dá prova, já que é tão chato assim. Volto ao Péricles, à minha mudez e às minhas expectativas até que a aula comece.
O final dos cursos é sempre um momento de expectativa para mim. Que os alunos tenham dito que gostaram do curso ou não é menos importante do que a qualidade de seus trabalhos finais. Trabalhos bons me deixam satisfeita; trabalhos fracos esgarçam qualquer elogio. Como virão os trabalhos? Nas apresentações, eles revelarão coisas novas? Saberei fazer críticas que apontem novos caminhos?
"Ah, espero que passe logo a próxima hora."
"Você tem os dois horários?"
"Não, mas é prova. Olha, prefiro aula que prova. Prova, a gente olha no relógio, depois olha denovo e não passou um minuto. É fogo."
Tiro os olhos de meu Péricles, de Atenas, onde me distraio até 5 minutos antes da aula, quando vou esperar na porta a saída do outro professor. Olho para a professora, e pergunto silenciosamente por que ela dá prova, já que é tão chato assim. Volto ao Péricles, à minha mudez e às minhas expectativas até que a aula comece.
Assinar:
Postagens (Atom)
