sábado, 10 de novembro de 2007

Cachorro entra em sala de aula em universidade do interior

Um cachorro preto, vira-lata, entrou na sala de aula de uma turma de administração pública, em torno das 21:20h, quando os alunos ainda se acomodavam para uma aula de psicologia social.

Não tenho receio nenhum que essa notícia vá parar nos jornais, então confidencio-a a você com tranquilidade. Para mim parece importante, mas para os leitores dos grandes jornais brasileiros não será; às vezes acontece o contrário, e aí é preciso ter cuidado.

Os alunos quando entram na sala pensam se querem ficar perto do professor ou da porta, para o caso de a aula tornar-se insuportável; se querem ficar com os amigos e dar risada, ou com as meninas e fingir que precisam do caderno emprestado. O cachorro também tinha suas dúvidas e seus critérios, e olhou para um lado e outro, esticando o pescoço, enquanto descia as escadas da sala estilo anfiteatro.

Eu disse: "Olha lá, aluno novo!" Os alunos riram, "Transferiu da Sociais, viu que não tinha futuro." Eu ri.

Na aula anterior discuti como analisar entrevistas, o que destacar nelas, que ausências notar, onde elas expandem nossa compreensão das relações sociais. As questões dos alunos eram boas, sobre a isenção do entrevistado, sobre a indução das perguntas e coisa e tal. Nessa aula eu tinha me prometido não descontar nos alunos minhas frustrações com a escola; quem mais se prejudicava com isso era eu. Afinal, gosto de dar aulas, gosto de ensinar e se eu detonar esse espaço da sala de aula fico só com a riquíssima vida intelectual de minha universidade e morro de inanição.

Disse que não é preciso ser isento, nem possível. Mas que o distanciamento e o olhar objetivo devem ser buscados, citei Simmel e seu estrangeiro. Disse que às vezes nem isso é possível, e mencionei que naquele dia mesmo meu olhar objetivo não funcionou. Conta, professora. Não posso. Conta sim, conta o milagre mas não o santo. Contei, analisamos a situação e as causas de minha falta de objetividade. Rimos de tudo, de mim, da situação. No final, agradeci. E voltei à aula.

O cachorro, a minha confidência, estávamos ficando amigos, a classe e eu. Na semana seguinte dividi a classe em dois grupos, uns que defenderiam a tese de que existem razões legítimas para a ação americana em outros países, outros que diriam que o poder americano era só o que estava em jogo. Pedi que alguém moderasse o debate e entrei no grupo minoritário dos legitimistas.

"Bom, massa disforme de maria-vai-com-as-outras, comecem", eu disse, quebrando o gelo. O outro grupo pediu ao moderador a minha expulsão do debate e começamos. Eu tinha dúvidas se os parceiros do meu grupo estavam mesmo comigo ou se estavam lá por ironia, mas não, precisa ver que argumentos legais. Temas: tolerância cultural, consumismo, leis internacionais, a definição de legitimidade, relativismo de valores. Debate bom, com briga e tudo. Me alonguei numa intervenção, e escutei essa: "Democracia, democracia, no final das contas é a sua voz da autoridade que conta." E também essa, dirigida a um dos legitimistas: "A posição da professora ficou clara, as intervenções não tem razão econômica, são apenas voltadas à estabilidade mundial. Quero saber sua opinião, Portuga, você concorda com isso?" Pergunta feita com fel. O Portuga falou bem, disse que a professora tinha apenas ressaltado um aspecto, mas claro que questões econômicas também entram na equação. Trabalho de equipe.

Depois o pessoal do fundão que chegou atrasado queria participar, e o moderador os boicotava. Os dois grupos que já tinham, através do conflito, criado uma relação, se uniram: periferia, não vem que não tem. Olha aí o terceiro mundo querendo voz.

Enfim, tenho me divertido com esses meninos. Terminamos o debate às 22:30, com o ritual da chamada. Até às 23:00 os alunos me perguntavam: as perguntas que elaboramos para o trabalho estão boas? Falo com gente que fez intercâmbio ou não? Se eu quiser estudar fora como faço? E se o pessoal no Japão não responder o questionário? Etc., etc. De onde vinha - essa é a questão - a autoridade? Não a autoridade da chamada, das notas, mas aquela que os deixa até as onze da noite me fazendo perguntas, como se eu soubesse o que é melhor.

De onde vinha a deferência por meu conhecimento e experiência?, que é algo que estranhamente não é cultivado na universidade. É possível que ela até se manifestasse mais depois das brincadeiras, das confidências, de me verem disputando um debate de igual para igual. Mas ela não poderia vir disso. Acho que com essa turma acertei em dar uma aula inteira sobre minhas pesquisas, como faço entrevistas, como redijo meus textos. Se eu não tivesse Lattes, como descobri que tem gente que não tem, aí não teria essa aula. E talvez não tivesse a que ter deferência... E o respeito seria algo vindo da tradição apenas, do que os pais disseram que se deveria ter pelos mestres, sem vínculo com a experiência da sala de aula.

Sala de aula que é - como acredita essa boa aluna da sociologia americana - construída a cada encontro, a cada texto, a cada discussão. A deferência é algo que o professor tem que arrancar dos alunos a cada semana, como um feirante arranca da dona-de-casa a cada semana suas notas de dez. Se no final do curso os alunos não te perguntarem o que fazer da vida - não que você saiba, não que você não tenha a obrigação de dizer que não sabe - me desculpe mas talvez você seja melhor feirante que mestre.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O Quarto Herdeiro

O feijão-com-arroz de minhas aulas é o seguinte: dou perguntas com objetivos específicos sobre um texto ou tema, peço aos alunos para se dividirem em grupos e as discutirem, e vou passando de grupo em grupo para saber como vão indo. Depois fazemos uma discussão geral com as questões trazidas por cada grupo. A aula dessa semana era sobre a experiência urbana moderna, que trazia impessoalidade, especialização, liberdade, individualidade e riqueza. Lá pelo final da aula um aluno no fundo me pergunta o que a questão da especialização e da objetividade diz a respeito de sua futura profissão de funcionário da máquina pública. Eu, que me acho Ph.D. em relacionar teoria e prática, tive que pensar. Estava num plano abstrato, sonhava com os relógios de Simmel concatenando a vida em Berlin. Pedi ao aluno que esclarecesse melhor a pergunta enquanto eu pensava alguma coisa.

Retomei alguns exemplos dados um pouco antes, o do médico que lê imagens o dia todo, e o do revisor de textos de um jornal, que nunca entram em contato com ninguém mas que não podem esquecer que há um médico, ou um jornalista, e em última instância um paciente, e um leitor, que dele dependem. Também assim, o auditor das contas da prefeitura deve manter seu olhar objetivo sem perder de vista que o Estado está lá para prover serviços públicos, e que as contas que ele examina não são um fim em si mesmo; ele não pode ser perder em picuinhas nem aprovar algo formalmente adequado que esconde falcatruas.

Aí saí da pergunta e comecei a contar a história do apartamento do tio Gilberto, e dos inúmeros documentos que o juiz pediu para autorizar a venda do referido bem, e que incluiam o inventário do avô Miguel morto em 1937, o atestado de óbito do bisavô Jacob Schnaider em 1936, e - pasmem - o atestado de mudança de nome de meu pai de 1948, de Henry Pait para Henrique Pait, nome pelo qual foi conhecido a vida toda. Era óbvio que o juiz não pensou em justiça quando encalacrou a venda; era óbvio que não desconfiava de fato que havia maracutaia em nosso pedido de alvará, e sabia que não havia nenhum herdeiro enganado, perdido por aí nos últimos 70 anos, a quem não queríamos dar a quarta parte do apartamento da Melo Alves. Mas o juiz se enamorou por todos aqueles nomes, pelos erros de grafia, pelas mudanças de identidade e ideologia ocorridas ao longo do século XX. Justiça, o que tenho eu a ver com isso? Sou apenas juiz, veja bem.

Há algo mágico em contar uma história pessoal em sala de aula. As conversas paralelas se suspendem. Os personagens ficam grandes, vivos, importantes. Voltei ao assunto, e disse que os documentos extras não diziam nada ao juiz, e que se houvesse maracutaia eles estariam até melhor apresentados e mais coerentes que os que de fato contavam a vida de minha família. E que um mix de objetividade e subjetividade era necessário no exercício de sua função. Disse ainda que quanto mais documentos se pedem, pior fica para quem é idôneo, melhor para quem não é.

E aí houve a polêmica. "Do jeito que o brasileiro é malandro, se não tiver regra vira zona." Contra-argumentei com meu curso como prova material. Eu deixo vocês trabalharem em casa, não dou prova em aula, cobro apenas o que eu acho necessário para a realização do trabalho, e depois confio que vocês fizeram as entrevistas, leram os textos, produziram análises. Se eu pego alguém que burlou as regras, reprovo e pronto, mas não posso prejudicar o grupo todo por um que vai plagiar, e que vai ser desonesto de qualquer modo.

Afinal, eu sou responsável pelo desenvolvimento intelectual de vocês.

Já estávamos no final da aula das 9 da noite de quinta-feira, e veio também do fundo: "Mas como você pode valorizar tanto a responsabilidade individual de cada aluno e ao mesmo tempo atribuir a você a responsabilidade sobre o curso?"

Sim, como é que eu poderia? Como é que eu poderia me sentir responsável por algo que ia além de minha iniciativa pessoal? Como é que eu não apenas dava as aulas, indicava os textos e seja o que deus quiser? Como é que eu não fazia como o juiz e pedia uns documentos a mais, assim, só por pedir, sabendo que o quarto herdeiro só existia em seu cérebro de ostra, e que bandidos de verdade roubavam casas em processos fraudulendos ali mesmo, na sua própria jurisdição?

Disse que não era meu o mérito por trabalhos brilhantes de alunos que até desdenhariam de minhas orientações, nem minha a culpa por trabalhos ruins feitos por alunos que, digamos, não priorizaram o curso nesse semestre; mas que pela qualidade média dos trabalhos finais eu era responsável. Que uma explicação boa esclarece, uma orientação boa dá caminhos, um texto bem escolhido informa. Que era minha, sim, a responsabilidade. E que ela não excluia a a responsabilidade deles; eram antes complementares.

Eu sei, parece básico. Eu sei, alguém deveria ter dito a eles que a responsabilidade é algo que diz respeito a todos. Eu sei, não é matéria do meu curso. Mas está aí nos jornais, muita gente não sabe. E essas pessoas, em algum lugar eles estudaram, e a ninguém foi dito: é sua responsabilidade.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

É só um curso

O programa dizia que o curso seria sobre a questão da diferença em nossa sociedade, sobre como as construimos e as vemos, como as aceitamos ou rejeitamos. Dizia também que os alunos teriam que investigar em seu próprio cotidiano quem eram e como viviam os diferentes. No site, eu perguntava o que esperavam do curso, e a adesão a minha questão foi brutal: todos tinham o que dizer. Um aluno disse que o curso o faria refletir sobre como lidava com a diferença e o faria a partir disso uma pessoa melhor.

Na aula, era o momento de botar os pingos nos is. Disse que tinha ficado contente com as expectativas, respondi dúvidas, esclareci interpretações, enfim, botei todos no mesmo barco. Emendei: tem gente que espera que o curso o faça uma pessoa melhor; baixem a bola, isso aqui é só um curso, só vamos aprender algumas coisas, fazer o trabalho e pronto. É um curso.

Às vezes eu mesma esqueço isso; é só um curso, uma porção de textos lidos e escritos, notas e faltas, aprovado e reprovado, até à vista.

Fico olhando para minha tela, de onde podem surgir trabalhos e questões pelo site, esperando alguma coisa a mais. Os alunos deixam tudo para a última hora, sempre, então no limite do prazo que eu mesma dei a eles começo a ficar apreensiva: e se ninguém fizer os trabalhos? E se eu não tiver nada para ler? E se eles não tiverem feito os benditos exercícios que desenho com tanto cuidado: “Passem um dia observando em seu cotidiano tudo o que diga respeito de um modo ou outro com a globalização.”

Os trabalhos vêm em jorros, claro, nas últimas horas do prazo. Com temas diferentes e repetidos, com português cuidado ou de internet, com vozes pessoais ou chavões, um atrás do outro, pedindo comentários mesmo que depois reclamem, engraçados, tocantes, observadores, debochados. Sempre vêm, até agora. Sempre têm vindo. Leio, dou notas, eles reclamam como num curso, e nesse ato de dar notas e fazer reclamações estamos reafirmando, é apenas um curso, fiz isso pois é meu trabalho, fiz o tal passeio pois preciso do diploma. Eu não poderia dizer que quero que eles vejam o mundo e me contem o que viram, afinal adoro ouvir histórias, poderia?

É só um curso. Tenho que ensinar uns textos e dar notas para quem aprendeu. Terminamos o curso, uns aliviados que era só um curso, outros pessoas melhores, e a maioria um pouco na dúvida, era só um curso? Era, era só um curso.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Incompletude

De um aluno: "Meu sentimento de formando é que necessito agora entrar em uma faculdade."

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Uma professora excelente!

Uma aluna que reprovei por plágio está me dando um certo trabalho, mas não é que os colegas até que aprovaram minha postura inflexível, dizendo até que hoje, o que os alunos mais têm falta, é de uma autoridade firme e presente? É o que procuro ser, essa autoridade liberal nas idéias mas rígida nos princípios, onde discordar de mim é desejado, mas respeitar as regras obrigatório. Com a liberdade, quero que sintam o peso da responsabilidade, da decisão, que tenham que encarar as consequências dos atos, o que num país cheio de carimbos e anistias, convenhamos, não é pouco. Onde pouco fazemos sem permissão, mas sobre o que fazemos nenhuma responsabilidade temos... Com as regras, quero deixar claro minha visão sobre o que é certo e o que é errado. Plágio é errado. Trabalhar é certo. Respeitar opiniões diferentes é certo. Aceitar opiniões sem refletir, só porque veio do fulano ou cicrano, é errado. E assim por diante.

Nunca tentei nem construir nem destruir nenhum país, então a comparação talvez não caiba. Mas gostei do que essa professora disse outro dia no jornal: 'She said that she is looking forward to getting back into the classroom at Stanford, where she hopes to interact with students, to challenge them, to hear them out and perhaps to teach them a thing or two about what it’s like to be in the driver’s seat when a national-security crisis explodes.
“I would do a simulation with students, where they are given a problem, some hot spot in the world,” she said. “And over a week they’d have to be the national security adviser solving those problems.”
“All of a sudden,” she said, “it doesn’t look so easy.”'

Modestamente, não tenho a experiência de uma secretária de Estado para dizer aos alunos que não é lá muito fácil. Menos modestamente, sei que ter responsabilidade sobre o que fazemos não é lá muito fácil. A cada dia, na sala de aula, às vezes até deixando a máscara cair e revelando dúvidas e indecisões, procuro dizer aos alunos que não é lá muito fácil, na esperança perene dos bons professores, de que outros façam as coisas melhor do que nós mesmos pudemos fazer.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Regras

Ninguém leu os textos, então a discussão propriamente dita ficou para os últimos 30 minutos da aula, depois que eu já os tivesse inteirado do assunto. Mas no início da aula, quando eu apenas dava avisos, procurava horários alternativos para uma aula, prometia um ponto extra para quem fizesse um exercício mais aprofundado, aí uma sede insaciável de discutir regras aparecia. Por que?
Não sei. A parte mais importante de meu trabalho é identificar o que chamo de nós do aprendizado: aquelas barreiras culturais que impedem um grupo de alunos de seguir adiante em sua busca pelo conhecimento. Qual a barreira? Como a detonar? Como encorajar os alunos a ultrapassá-la depois da explosão? É trabalho duro, trabalho de general corajoso que enfrenta campo minado para mostrar o caminho mais seguro.
Eu não sei exatamente como explodir a barreira, mas acho que já a identifiquei: a obsessão pelas regras. Um ponto a mais para alguém que vai fazer a observação em S. Paulo, e não no Interior? Como assim? E meus direitos? Minha garantia que ninguém vai sair na frente na corrida da vida apenas porque decidiu fazer algo além do mínimo necessário? Vamos discutir as regras. A observação em si ficará em segundo plano. Se ela será enriquecida pela diversidade de perspectivas, ou se o ponto a mais até me servirá de estímulo para fazer um trabalho melhor, não importa. As regras.
Cheguei tarde, não participei da aula, intimidei a professora exigindo minha presença, mas tenho os meus direitos. Quero a justiça de não ser prejudicado por não vir à aula ou por cometer plágio. É isso que se debate, com seriedade e empenho. Os desafios enfrentados pelo indivíduo diante da globalização, tema do meu curso, viram até uma brincadeira, uma coisa divertida e leve, eu falo de minhas sobrinhas que fazem parte do fenômeno Harry Potter, e depois digo que na segunda parte do curso vamos discutir a censura do YouTube, vocês sabem, a Cicarelli, e tudo fica leve e interessante, não chegamos a debater nada.
As regras nos fazem ranger o dentes.
É por elas que nos debatemos, nós, talvez, brasileiros? nós funcionários públicos?
Nós incertos quanto a elas, quanto ao nosso dever de cumpri-las, quanto à nossa obrigação constitucional de burlá-las. Nós um pouco Marcola, como o aluno que me intimidou, à noite, cansada, estremeci por dentro, cedi. Nós um pouco Gabeira, indignados, errados, derrotados nos nossos sonhos errados e depois novamente nos sonhos certos. Nós Genoíno, indefinido, escondido, sem orgulho dos erros mas sem nada que pareça um arrependimento tampouco. Nós Zélia, pioneira, que abriu as portas para a entrada das mulheres na desonestidade pública, quando antes estávamos confinadas, nessa área, à esfera privada. Nós Delcídio, ambíguo, nós Serraglio, cumprindo o papel de modo correto, sem desvios, sem esperança tampouco.
Esse embate com as regras parece significar muito. Que regras? Valem para quem? O que significam? Para que cumprir, e para que ignorar? Elas nos ajudam a caminhar, ou vamos construir nosso mundo como se elas fossem, como se elas, e não nossos verdadeiros problemas, fossem a barreira a ser destruída?

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Um pequeno mundo

Às vezes também entramos nós numa sala com vontade de escutar e aprender. E como para nossos alunos, não é apenas a matéria apresentada que nos atrai.

Então entrei na sala onde iriam discutir a contribuição da escola de Columbia à sociologia. Era a segunda palestra do Professor Katz que eu via, então já parecia bajulação. Que parecesse; um pouco era mesmo, e a bajulação era uma boa desculpa para meu verdadeiro interesse, a mente daquele velho judeu que continuava a pensar sobre o mundo.

Então foi em Columbia que se reuniram os refugiados alemães, e passaram a fazer aqueles estudos sobre mídia. Não que se interessassem pela mídia, apenas pelo modo como as pessoas tomam decisão. Coca ou pepsi, ABC ou NBC, não importava. Mas como as pessoas decidem, quem influencia quem, o que fazem com o que lêem ou escutam? Perguntas perenes. Criaram um centro para captar recursos das grandes empresas, uma precursora de nossas Fipes. E depois colocavam os alunos de pós em empregos nos departamentos de pesquisa dessas mesmas empresas, quem influencia quem?

Anos 50, grandes progressos.

Mandaram o Adorno pesquisar a música de rádio. Mas, disse o Katz, ele não gostava do rádio, achava que não se ouvia bem nos aparelhos. E não gostava das músicas, deviam tocar Schoenberg! Então não deu certo, e essa foi a briga entre Adorno e Lazarfeld. Aí o palestrante mais novo disse que a cooperação não foi tão desastrosa, e que Adorno ensinou, de volta a Frankfurt, as técnicas de pesquisa aprendidas em Columbia.

Mas isso não era acurado, de acordo com um velho alemão sentado atrás de mim que levantou a mão e disse: “Professor Adorno não ensinou técnicas de pesquisa em Frankfurt; apenas seus assistentes o fizeram, pois o Instituto se preocupava com a capacidade de seus alunos de encontrar bons empregos.”

Recado dado, informação corrigida, missão cumprida. A fotografia de um geração que, por escolha ou não, construiu seu pequeno mundo, onde se podia brigar por gostar de Schoenberg e sempre haveria espaço para levantar a mão e dizer a verdade, seu pequeno mundo espalhado pelos quatro cantos do globo.