sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O primeiro emprego

Ele disse que não colocava negro no açougue pois as clientes não iam comprar carne.

Eu não estava preparada para ouvir isso. Era meu primeiro emprego, tinha 21 anos, era dezembro de 1989. Não era na Vila Maria, era lá na Avenida Angélica, onde uma vez assaltaram e não pegaram nada da minha mãe pois de avental de professor passou por indigente.

O açougue não tinha ventilação, e aquele filme plástico embalando as carnes, rompido por uma linha de metal aquecido, soltava um cheiro nauseante. Então em meus relatórios, no programa de trainee do Pão-de-Açúcar, apareciam essas coisas: a falta de ventilação, de equipamentos, de ética.

No Brasil, lembrem, o muro de Berlim ainda demoraria uma década para ser derrubado. Não sei precisar quando foi; eu estava no exterior e não saiu nos jornais. Talvez em outras empresas ainda houvesse racismo institucionalizado, talvez não. Não sei.

E na escola não me ensinaram nada. Quando digo nada, digo absoluta e completamente nada. Nem os que ensinavam modelos matemáticos, nem os que ensinavam história, nem os que ensinavam el derrumbe del capitalismo.

Mas no Pão-de-Açúcar fiz minha primeira “ethnographic field research”, usando entrevistas semi-estruturadas e observação participativa, como às vezes indico em pedidos de bolsa para a Fapesp.

Na Panamericana havia um gerente negro, de nível cultural acima dos outros gerentes que eu havia conhecido. O que aquele homem deve ter feito para chegar onde chegou eu nem sei, a Panamericana era um lugar privilegiado. Lá fiquei bastante tempo, fiz amizade com um menino meio atrapalhado que militava pelo PC do B, e que foi demitido enquanto eu estava lá.

Perguntei ao gerente, super doce e sem acusação: “Escuta, e o Fulano, ele foi demitido por que era do PC do B?” O gerente, que queria agradar aos trainees, e com quem eu tinha me dado especialmente bem, negou, muito tranquilo. “Imagine, ele era todo atrapalhado, foi por causa do serviço. Aqui a gente não persegue ninguém, só queremos o serviço bem feito.” Ele conhecia meus valores, e emendou para seu braço direito: “Cicrano, o Fulano, por que a gente demitiu?”

“Ah, por causa da política. PC do B é pobrema né?” Fiquei constrangida, eu gostava do gerente. Mas a vida não é simples e manter aquele cargo devia ser um malabarismo diário.

No shopping Iguatemi eu curti, pois me enfiei na peixaria e aprendi a cortar filés. Os peixeiros ficaram admirados com minha destreza, ganhei um respeito. Eu tendia a simpatizar mais com os trabalhadores e menos com os gerentes, via esses últimos como aquele tipo de gente que subiu um degrau e já faz gosto em pisar nos debaixo.

Não sei se era meu marxismo, se era a educação de meus pais que também tinham nojo da mediocridade. Ainda tenho um pouco desse sentimento, nojo de pesquisador que leu um livro, de rico que doa roupa usada (ao contrário dos americanos que doam bibliotecas gigantes), penso nos gerentes do Pão-de-Açúcar do final dos anos 80.

O muro não tinha caído, nem para mim. Eu podia, se tivesse tido maturidade ou instrução, sentado ao lado do chefe e dito: “Essa empresa tem umas coisas que se virarem públicas será terrível. Quero ser o ombudsman interno, coletar informação e ajudar a diretoria a lidar com eles.”

Mas não falei nada, só continuei enviando meus relatórios. Então me disseram: “Você, o Ricardo e o Renato são a nata do programa. E a nata a gente joga fora.”

Depois ainda havia as grávidas, que não podiam ficar de pé e sentavam-se todas em torno de uma mesa de madeira, descascando alho. E o sujeito que, da origem dos produtos que recebia, só sabia o seguinte: “vêm do fornecedor.”

Isso eu tinha aprendido com Marx, era a tal alienação. Mas numa São Paulo já afluente me parecia um desperdício de vida, me doía a alma.

E numa loja da periferia, onde nos fundos havia um refrigerador desligado repleto de moscas, e à disposição dos clientes danones vencidos, descobri que eles contratavam justiceiros para se livrar dos meninos que roubavam whiskey.

Bem, até agora você me achou fresca, aos 21 anos não aguentar umas mulheres descascando alho. Mas justiceiros era demais, e pedi demissão. Um coordenador do projeto pediu para eu ficar, ficou horas me explicando que a empresa queria mudar e precisava de gente como eu.

Aceitei. Mas o outro grupo tinha ficado contente com meu pedido, e então fui demitida no dia seguinte.

O Renato me disse: eles tinham falado dos justiceiros numa palestra lá na Berrini, não lembra? Não, eu não lembrava. Como disse, eu não estava preparada para ouvir.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

FEA-USP


Aqui vai uma foto que retrata tão bem a escola onde estudei, a FEA-USP, no olhar de uma grande amiga, Karla Krepsky.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Os Salles de Santiago

Vi Santiago ontem, no Espaço Unibanco. É um pouco redundante isso, ver um filme de João Moreira Salles no cinema do “banco de papai”. Mas gosto do espaço Unibanco, e se algum dia ganhar na loteria vou botar o dinheiro no Unibanco, acho chique.

Quando vi o diretor numa palestra na Unicamp, uns anos atrás, achei o moço de uma educação, de uma delicadeza impressionante. Fiquei com a impressão de que talvez fosse nobre mesmo. De que nascer em berço de ouro, apesar dos meus marxismos e de minhas histórias de imigrantes, nos fizesse gente melhor.

Então me caiu o queixo escutar sua voz ríspida – e a de uma mulher que ele apresenta como amiga – se dirigindo ao idoso Santiago, antigo mordomo da casa de seus pais. O filme é sobre essa rispidez, que ao final Joãozinho expõe ao nosso riso, e sobre a qual ao longo do filme reflete.

Mas refletir sobre a rispidez não o exime de nada. Ela está lá, o tempo todo, diga isso, encoste a cabeça aqui, agora não, isso não, então diz. Aos meus alunos digo que é preciso escutar. Não dou Derrida nem Peirce, para não ficarem escutando fantasma de filósofo. Digo para abrirem os olhos e manterem as orelhas de pé. Digo para formularem questões só pra conduzir a conversa. Prometo que todos vão querer falar com eles, e que não é preciso interpretar nada pois as pessoas têm compulsão a dizer a verdade.

E eles me vêm com aqueles trabalhos divertidos.

Como é que um documentarista, e ainda por cima nobre, não soube escutar?

Aí talvez valham as histórias de imigrantes. “Shemá Israel”, escuta povo de Israel, é um mandamento ético. Escutar é algo solene. Nessa reza acho que Israel escuta Deus, e às vezes Deus escuta Israel, mas um pouco desse escutar divino está em cada escuta, em cada ato de parar o mundo e tentar adivinhar o que um outro é decifrando os sons que emite.

O filme também é sobre nobreza, e esse é o pulo do gato. Santiago era fissurado pelas nobrezas, todas, antigas, medievais, indígenas, sobretudo européias. Sonhou ser nobre na França, em plena revolução, diz o filme. Ao final do documentário vislumbramos um resto de gente nesse Santiago. O diretor abre uma pequena janela, e o filme fecha.

Mas faltou mesmo o pulo do gato. Faltou não apenas revelar Santiago como olhar o mundo com seus olhos – também procuro ensinar isso aos alunos, não é fácil, ver o mundo com os olhos do outro. E os olhos de Santiago mostrariam uma nobreza capenga, mamãe, papai e seus presidentes depostos, Joãozinho, o calor do Rio de Janeiro. Ou talvez até uma nobreza nobre, como a que vi na palestra da Unicamp, não sei. Mas queria saber quem eram os Salles no olhar de Santiago.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

76 alunos

Queria empurrar todas as minhas aulas para o segundo semestre e passar o primeiro pensando na vida; não deu.

Como teria que ir para Araraquara anyway, acabei oferecendo uma optativa, batizei de mídia e globalização.

76 alunos se inscreveram. O site já está pronto. Às vezes entro nele, ainda vazio. Em um mês haverá 76 alunos lá. Talvez menos, acho que quando eu explicar o que é o curso, e dizer que não basta ter lido uma vez um artigo na Caros Amigos sobre o assunto, um povo vai sair.

Mesmo assim, 76 me impressionou. Quem são? O que esperam? O que vão exigir de mim, como se assim fazendo exigissem do mundo?

76 vozes, jeitos de escrever, comportamentos em aula. Nunca dei um curso para tanta gente. Juntos, vão virar uma pasta indistinta? Ou ainda haverá o atento do fundo, o radical que não lê os textos, o tímido que desabrocha, a menina enfadada?

Faço contas: se eu mantiver o número de alunos por grupo, periga ter 25 trabalhos para orientar. Assusto eles na primeira aula, digo que o curso reprova? Ou encaro como se fosse um passeio?

Vou fingir que está tudo sob controle. Que quem carrega um arenque carrega um menir. Vou entrar na sala de aula no piloto automático, vou rezar para ter 76 assistentes.

domingo, 18 de novembro de 2007

"Putaria"

Lembra-se daquela moda das camisetas pretas, com as palavras "dignidade" ou "respeito" escritas em maiúsculas brancas, sem mais nada, como se fossem statements completos? Respeito para quem, e por que? A quem faltava dignidade, a quem vestia, a quem lia a camiseta ou a um terceiro ausente? Camisetas caras, que ficam bem em gente que faz Pilates.

Eu dava aula num dia desses, naquela turma da noite divertida, quando um aluno fez um comentário muito pertinente. Escutei atenta, como sempre, até que caí na risada: "Turma, olha só esse colega de vocês, olha a camiseta dele, vocês viram? 'Putaria', está escrito 'putaria', olha só."

Era também um statement, sem alvo claro. Putaria era o que ele defendia, era o que ele denunciava? Ele retomou o comentário, eu procurei escutar mas disse, citando Goffman, que a incongruência entre seu figurino e seu texto me fazia cócegas. Contei que na minha época as distribuidoras de petróleo, com medo de estatizações, davam adesivos para vidros com os dizeres: "Petróleo, quem distribui também contribui." O DCE da USP lançou a paródia "Cannabis, quem distribui também contribui." Era aquele restinho da idade da ironia, que começa na terceira série do primário, não se se de acordo com Piaget ou comigo mesma, e tem fim indefinido.

Mas se o adesivo da maconha era meio datado, com toda a violência das drogas e coisa e tal, a camiseta da putaria me parecia bem apropriada. Nossas convicções são rasas, condensáveis em poucas palavras e, especialmente, fáceis de virar do avesso.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Filha da Rosa

Hoje pensei na minha mãe, que foi professora, vocês sabem. Inclusive às vezes digo aos alunos que seu nome era Rosa e se sentiria honrada em ser lembrada por jovens tão dinâmicos como eles, ainda mais no contexto da docência de sua filha.

No começo do ano fizemos uma homenagem a ela e chamamos os colegas do Mackenzie. O Orlando estava nostálgico da época em que dava aulas com minha mãe. Sorumbático, diria ela. Ou meditabundo, minha mãe era cheia de expressões. "Mas as aulas não tem animam, Orlando?", eu perguntei. "Ah, as aulas, eu não sou como a Rosa. Os alunos seguravam a Rosa depois da aula, a aula não era só uma aula."

É verdade, minha mãe chegava sempre tarde para o jantar, "Os alunos me seguraram." Não sei o que tanto tinham para perguntar para a professora de estatística, entre todos os mestres, mas que seguravam seguravam.

Se eu disser que tenho 15% da simpatia de minha mãe é um exagero. Sou chata, brava, crítica e pró-americana. Outro dia perdi a calma e abandonei-os por 10 minutos, batendo a porta, porque estava de regime e um aluno sussurou algo.

Mas eles me seguram depois da aula.

Ainda a deferência

Hoje fui à Fapesp assinar uns papéis mas chegando lá o prédio imponente de concreto me desnorteou e eu fui tirando os papéis da pasta sem saber o que com eles fazer. Haviam me dado, enfim, a grana para ir aos Estados Unidos, depois de umas tantas petições. Quem havia me dado? Era o mesmo parecerista que negou inicialmente? E por que agora me dava?

Mas na porta há apenas uns meninos em frente a computadores, como se você estivesse no laboratório Fleury e eles fossem coletar a sua urina para exames. Depois veio um homem e me tratou com deferência, uma deferência falsa, pois olhou meu jeans e meu jeito atrapalhado e pensou: não foi essa aí que escreveu a petição tão chique, foi outra (sim, pensei na clarice e na sua petição chique).

Imaginei que alguém tivesse treinado o homem, trate os afro-descendentes com respeito, trate os fisicamente desafiados com naturalidade, trate os bóias-frias do saber com delicadeza. Não importa o que a pessoa faz, lhe disseram, mesmo o mais humilde professor em tempo parcial merece consideração. Que não por outra razão, por ter preenchido todos esses formulários que a gente exige.

Saí de lá sem saber que experiência não vivida aquele encontro burocrático me recordava. Não era o Kafka, pois meu processo era cristalino, teria fim. Não era a visita de Arendt à Gestapo, se bem que essa tinha sido até bastante cordial. Não era o Detran, no Detran me assaltavam e aqui me faziam a gentileza de devolver parte do botim. "O dinheiro já deve estar aqui ainda antes do feriado, professora."

Um bolsa-família, um seguro-desemprego. Era isso. Depois veio um menino ainda mais coitado que eu pegar sua iniciação científica. Por que é que no Brasil até as instituições que funcionam tem essa cara de senhor de engenho?