Os alunos falaram de todas as suas insatisfações político-pedagógico-metodológico-literário-ético-conceituais ao meu curso, e escutei-os pacientemente por quase uma hora. Justificava serenamente cada atitude questionada. Ao fim, disse, puxa, sabiam que eu não esperava mais um motim na terceira aula, como foi no ano passado?
Eles riram, depois me disseram que a idéia de um motim quebrou o gelo.
Eu me perguntei por que ando indiferente, vendo a classe em polvorosa e enxergando "mais um motim de terceira aula". Sei que ao final vão fazer bons trabalhos e me agradecer, parte envergonhados, parte a contragosto. Essa serenidade, é coisa boa? Ou envelheci?
Mas por que o motim?, me perguntaram as amigas. Bem, em parte sem razão, pois apenas apresentei o curso na primeira aula, discuti um conto de Clarice na segunda e pedi que eles escrevessem uma apresentação pessoal no site para a terceira aula. Aí o motim, às nove da manhã de sexta-feira, aproximadamente.
Em parte, cobertos de razão. Como é que alguém vem e diz que a língua é um instrumento de comunicação, e que a sala de aula pode ser rica, e que eles vão escrever textos bárbaros ao fim do semestre, logo agora no final do curso quando já acreditavam não poder fazer nada, não confiar em ninguém.
Portanto falei coisas indignas. Sem querer abusar da Clarice, tirei a terceira perna e esbravejaram. No conto estudado, uma menina tem uma epifania - cada vez mais detesto essa palavra, o que ela teve em português foi um puta enjôo - por que descobre que o professor acreditou nas tolices dela.
Não foi uma epifania, foi mais um motim mesmo, com líderes de nariz em pé e seguidores mais e menos confiantes. Mas acho que foi como no conto, eu disse que ia acreditar em suas tolices.
terça-feira, 18 de março de 2008
sábado, 1 de março de 2008
Professor tem que explicar bem
... mas às vezes eu esqueço disso. Desta vez expliquei direito na primeira aula o que vou fazer ao longo do semestre, e acho que poupei um bom tempo e muitos problemas com isso.
O estranho é que não é simples você dizer o que vai fazer. Precisei de alguns anos para isso. Depois choveram alunos no intervalo com idéias para os projetos, acho que acertei. Será que esse ano não tem motim??
O processo por plágio continua, já está uma pasta pesada. Impressionante como a burocracia universitária, como um Midas reverso, consegue transformar um plágio documentado em um importúnio ao professor.
O estranho é que não é simples você dizer o que vai fazer. Precisei de alguns anos para isso. Depois choveram alunos no intervalo com idéias para os projetos, acho que acertei. Será que esse ano não tem motim??
O processo por plágio continua, já está uma pasta pesada. Impressionante como a burocracia universitária, como um Midas reverso, consegue transformar um plágio documentado em um importúnio ao professor.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
O primeiro emprego
Ele disse que não colocava negro no açougue pois as clientes não iam comprar carne.
Eu não estava preparada para ouvir isso. Era meu primeiro emprego, tinha 21 anos, era dezembro de 1989. Não era na Vila Maria, era lá na Avenida Angélica, onde uma vez assaltaram e não pegaram nada da minha mãe pois de avental de professor passou por indigente.
O açougue não tinha ventilação, e aquele filme plástico embalando as carnes, rompido por uma linha de metal aquecido, soltava um cheiro nauseante. Então em meus relatórios, no programa de trainee do Pão-de-Açúcar, apareciam essas coisas: a falta de ventilação, de equipamentos, de ética.
No Brasil, lembrem, o muro de Berlim ainda demoraria uma década para ser derrubado. Não sei precisar quando foi; eu estava no exterior e não saiu nos jornais. Talvez em outras empresas ainda houvesse racismo institucionalizado, talvez não. Não sei.
E na escola não me ensinaram nada. Quando digo nada, digo absoluta e completamente nada. Nem os que ensinavam modelos matemáticos, nem os que ensinavam história, nem os que ensinavam el derrumbe del capitalismo.
Mas no Pão-de-Açúcar fiz minha primeira “ethnographic field research”, usando entrevistas semi-estruturadas e observação participativa, como às vezes indico em pedidos de bolsa para a Fapesp.
Na Panamericana havia um gerente negro, de nível cultural acima dos outros gerentes que eu havia conhecido. O que aquele homem deve ter feito para chegar onde chegou eu nem sei, a Panamericana era um lugar privilegiado. Lá fiquei bastante tempo, fiz amizade com um menino meio atrapalhado que militava pelo PC do B, e que foi demitido enquanto eu estava lá.
Perguntei ao gerente, super doce e sem acusação: “Escuta, e o Fulano, ele foi demitido por que era do PC do B?” O gerente, que queria agradar aos trainees, e com quem eu tinha me dado especialmente bem, negou, muito tranquilo. “Imagine, ele era todo atrapalhado, foi por causa do serviço. Aqui a gente não persegue ninguém, só queremos o serviço bem feito.” Ele conhecia meus valores, e emendou para seu braço direito: “Cicrano, o Fulano, por que a gente demitiu?”
“Ah, por causa da política. PC do B é pobrema né?” Fiquei constrangida, eu gostava do gerente. Mas a vida não é simples e manter aquele cargo devia ser um malabarismo diário.
No shopping Iguatemi eu curti, pois me enfiei na peixaria e aprendi a cortar filés. Os peixeiros ficaram admirados com minha destreza, ganhei um respeito. Eu tendia a simpatizar mais com os trabalhadores e menos com os gerentes, via esses últimos como aquele tipo de gente que subiu um degrau e já faz gosto em pisar nos debaixo.
Não sei se era meu marxismo, se era a educação de meus pais que também tinham nojo da mediocridade. Ainda tenho um pouco desse sentimento, nojo de pesquisador que leu um livro, de rico que doa roupa usada (ao contrário dos americanos que doam bibliotecas gigantes), penso nos gerentes do Pão-de-Açúcar do final dos anos 80.
O muro não tinha caído, nem para mim. Eu podia, se tivesse tido maturidade ou instrução, sentado ao lado do chefe e dito: “Essa empresa tem umas coisas que se virarem públicas será terrível. Quero ser o ombudsman interno, coletar informação e ajudar a diretoria a lidar com eles.”
Mas não falei nada, só continuei enviando meus relatórios. Então me disseram: “Você, o Ricardo e o Renato são a nata do programa. E a nata a gente joga fora.”
Depois ainda havia as grávidas, que não podiam ficar de pé e sentavam-se todas em torno de uma mesa de madeira, descascando alho. E o sujeito que, da origem dos produtos que recebia, só sabia o seguinte: “vêm do fornecedor.”
Isso eu tinha aprendido com Marx, era a tal alienação. Mas numa São Paulo já afluente me parecia um desperdício de vida, me doía a alma.
E numa loja da periferia, onde nos fundos havia um refrigerador desligado repleto de moscas, e à disposição dos clientes danones vencidos, descobri que eles contratavam justiceiros para se livrar dos meninos que roubavam whiskey.
Bem, até agora você me achou fresca, aos 21 anos não aguentar umas mulheres descascando alho. Mas justiceiros era demais, e pedi demissão. Um coordenador do projeto pediu para eu ficar, ficou horas me explicando que a empresa queria mudar e precisava de gente como eu.
Aceitei. Mas o outro grupo tinha ficado contente com meu pedido, e então fui demitida no dia seguinte.
O Renato me disse: eles tinham falado dos justiceiros numa palestra lá na Berrini, não lembra? Não, eu não lembrava. Como disse, eu não estava preparada para ouvir.
Eu não estava preparada para ouvir isso. Era meu primeiro emprego, tinha 21 anos, era dezembro de 1989. Não era na Vila Maria, era lá na Avenida Angélica, onde uma vez assaltaram e não pegaram nada da minha mãe pois de avental de professor passou por indigente.
O açougue não tinha ventilação, e aquele filme plástico embalando as carnes, rompido por uma linha de metal aquecido, soltava um cheiro nauseante. Então em meus relatórios, no programa de trainee do Pão-de-Açúcar, apareciam essas coisas: a falta de ventilação, de equipamentos, de ética.
No Brasil, lembrem, o muro de Berlim ainda demoraria uma década para ser derrubado. Não sei precisar quando foi; eu estava no exterior e não saiu nos jornais. Talvez em outras empresas ainda houvesse racismo institucionalizado, talvez não. Não sei.
E na escola não me ensinaram nada. Quando digo nada, digo absoluta e completamente nada. Nem os que ensinavam modelos matemáticos, nem os que ensinavam história, nem os que ensinavam el derrumbe del capitalismo.
Mas no Pão-de-Açúcar fiz minha primeira “ethnographic field research”, usando entrevistas semi-estruturadas e observação participativa, como às vezes indico em pedidos de bolsa para a Fapesp.
Na Panamericana havia um gerente negro, de nível cultural acima dos outros gerentes que eu havia conhecido. O que aquele homem deve ter feito para chegar onde chegou eu nem sei, a Panamericana era um lugar privilegiado. Lá fiquei bastante tempo, fiz amizade com um menino meio atrapalhado que militava pelo PC do B, e que foi demitido enquanto eu estava lá.
Perguntei ao gerente, super doce e sem acusação: “Escuta, e o Fulano, ele foi demitido por que era do PC do B?” O gerente, que queria agradar aos trainees, e com quem eu tinha me dado especialmente bem, negou, muito tranquilo. “Imagine, ele era todo atrapalhado, foi por causa do serviço. Aqui a gente não persegue ninguém, só queremos o serviço bem feito.” Ele conhecia meus valores, e emendou para seu braço direito: “Cicrano, o Fulano, por que a gente demitiu?”
“Ah, por causa da política. PC do B é pobrema né?” Fiquei constrangida, eu gostava do gerente. Mas a vida não é simples e manter aquele cargo devia ser um malabarismo diário.
No shopping Iguatemi eu curti, pois me enfiei na peixaria e aprendi a cortar filés. Os peixeiros ficaram admirados com minha destreza, ganhei um respeito. Eu tendia a simpatizar mais com os trabalhadores e menos com os gerentes, via esses últimos como aquele tipo de gente que subiu um degrau e já faz gosto em pisar nos debaixo.
Não sei se era meu marxismo, se era a educação de meus pais que também tinham nojo da mediocridade. Ainda tenho um pouco desse sentimento, nojo de pesquisador que leu um livro, de rico que doa roupa usada (ao contrário dos americanos que doam bibliotecas gigantes), penso nos gerentes do Pão-de-Açúcar do final dos anos 80.
O muro não tinha caído, nem para mim. Eu podia, se tivesse tido maturidade ou instrução, sentado ao lado do chefe e dito: “Essa empresa tem umas coisas que se virarem públicas será terrível. Quero ser o ombudsman interno, coletar informação e ajudar a diretoria a lidar com eles.”
Mas não falei nada, só continuei enviando meus relatórios. Então me disseram: “Você, o Ricardo e o Renato são a nata do programa. E a nata a gente joga fora.”
Depois ainda havia as grávidas, que não podiam ficar de pé e sentavam-se todas em torno de uma mesa de madeira, descascando alho. E o sujeito que, da origem dos produtos que recebia, só sabia o seguinte: “vêm do fornecedor.”
Isso eu tinha aprendido com Marx, era a tal alienação. Mas numa São Paulo já afluente me parecia um desperdício de vida, me doía a alma.
E numa loja da periferia, onde nos fundos havia um refrigerador desligado repleto de moscas, e à disposição dos clientes danones vencidos, descobri que eles contratavam justiceiros para se livrar dos meninos que roubavam whiskey.
Bem, até agora você me achou fresca, aos 21 anos não aguentar umas mulheres descascando alho. Mas justiceiros era demais, e pedi demissão. Um coordenador do projeto pediu para eu ficar, ficou horas me explicando que a empresa queria mudar e precisava de gente como eu.
Aceitei. Mas o outro grupo tinha ficado contente com meu pedido, e então fui demitida no dia seguinte.
O Renato me disse: eles tinham falado dos justiceiros numa palestra lá na Berrini, não lembra? Não, eu não lembrava. Como disse, eu não estava preparada para ouvir.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
FEA-USP
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Os Salles de Santiago
Vi Santiago ontem, no Espaço Unibanco. É um pouco redundante isso, ver um filme de João Moreira Salles no cinema do “banco de papai”. Mas gosto do espaço Unibanco, e se algum dia ganhar na loteria vou botar o dinheiro no Unibanco, acho chique.
Quando vi o diretor numa palestra na Unicamp, uns anos atrás, achei o moço de uma educação, de uma delicadeza impressionante. Fiquei com a impressão de que talvez fosse nobre mesmo. De que nascer em berço de ouro, apesar dos meus marxismos e de minhas histórias de imigrantes, nos fizesse gente melhor.
Então me caiu o queixo escutar sua voz ríspida – e a de uma mulher que ele apresenta como amiga – se dirigindo ao idoso Santiago, antigo mordomo da casa de seus pais. O filme é sobre essa rispidez, que ao final Joãozinho expõe ao nosso riso, e sobre a qual ao longo do filme reflete.
Mas refletir sobre a rispidez não o exime de nada. Ela está lá, o tempo todo, diga isso, encoste a cabeça aqui, agora não, isso não, então diz. Aos meus alunos digo que é preciso escutar. Não dou Derrida nem Peirce, para não ficarem escutando fantasma de filósofo. Digo para abrirem os olhos e manterem as orelhas de pé. Digo para formularem questões só pra conduzir a conversa. Prometo que todos vão querer falar com eles, e que não é preciso interpretar nada pois as pessoas têm compulsão a dizer a verdade.
E eles me vêm com aqueles trabalhos divertidos.
Como é que um documentarista, e ainda por cima nobre, não soube escutar?
Aí talvez valham as histórias de imigrantes. “Shemá Israel”, escuta povo de Israel, é um mandamento ético. Escutar é algo solene. Nessa reza acho que Israel escuta Deus, e às vezes Deus escuta Israel, mas um pouco desse escutar divino está em cada escuta, em cada ato de parar o mundo e tentar adivinhar o que um outro é decifrando os sons que emite.
O filme também é sobre nobreza, e esse é o pulo do gato. Santiago era fissurado pelas nobrezas, todas, antigas, medievais, indígenas, sobretudo européias. Sonhou ser nobre na França, em plena revolução, diz o filme. Ao final do documentário vislumbramos um resto de gente nesse Santiago. O diretor abre uma pequena janela, e o filme fecha.
Mas faltou mesmo o pulo do gato. Faltou não apenas revelar Santiago como olhar o mundo com seus olhos – também procuro ensinar isso aos alunos, não é fácil, ver o mundo com os olhos do outro. E os olhos de Santiago mostrariam uma nobreza capenga, mamãe, papai e seus presidentes depostos, Joãozinho, o calor do Rio de Janeiro. Ou talvez até uma nobreza nobre, como a que vi na palestra da Unicamp, não sei. Mas queria saber quem eram os Salles no olhar de Santiago.
Quando vi o diretor numa palestra na Unicamp, uns anos atrás, achei o moço de uma educação, de uma delicadeza impressionante. Fiquei com a impressão de que talvez fosse nobre mesmo. De que nascer em berço de ouro, apesar dos meus marxismos e de minhas histórias de imigrantes, nos fizesse gente melhor.
Então me caiu o queixo escutar sua voz ríspida – e a de uma mulher que ele apresenta como amiga – se dirigindo ao idoso Santiago, antigo mordomo da casa de seus pais. O filme é sobre essa rispidez, que ao final Joãozinho expõe ao nosso riso, e sobre a qual ao longo do filme reflete.
Mas refletir sobre a rispidez não o exime de nada. Ela está lá, o tempo todo, diga isso, encoste a cabeça aqui, agora não, isso não, então diz. Aos meus alunos digo que é preciso escutar. Não dou Derrida nem Peirce, para não ficarem escutando fantasma de filósofo. Digo para abrirem os olhos e manterem as orelhas de pé. Digo para formularem questões só pra conduzir a conversa. Prometo que todos vão querer falar com eles, e que não é preciso interpretar nada pois as pessoas têm compulsão a dizer a verdade.
E eles me vêm com aqueles trabalhos divertidos.
Como é que um documentarista, e ainda por cima nobre, não soube escutar?
Aí talvez valham as histórias de imigrantes. “Shemá Israel”, escuta povo de Israel, é um mandamento ético. Escutar é algo solene. Nessa reza acho que Israel escuta Deus, e às vezes Deus escuta Israel, mas um pouco desse escutar divino está em cada escuta, em cada ato de parar o mundo e tentar adivinhar o que um outro é decifrando os sons que emite.
O filme também é sobre nobreza, e esse é o pulo do gato. Santiago era fissurado pelas nobrezas, todas, antigas, medievais, indígenas, sobretudo européias. Sonhou ser nobre na França, em plena revolução, diz o filme. Ao final do documentário vislumbramos um resto de gente nesse Santiago. O diretor abre uma pequena janela, e o filme fecha.
Mas faltou mesmo o pulo do gato. Faltou não apenas revelar Santiago como olhar o mundo com seus olhos – também procuro ensinar isso aos alunos, não é fácil, ver o mundo com os olhos do outro. E os olhos de Santiago mostrariam uma nobreza capenga, mamãe, papai e seus presidentes depostos, Joãozinho, o calor do Rio de Janeiro. Ou talvez até uma nobreza nobre, como a que vi na palestra da Unicamp, não sei. Mas queria saber quem eram os Salles no olhar de Santiago.
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
76 alunos
Queria empurrar todas as minhas aulas para o segundo semestre e passar o primeiro pensando na vida; não deu.
Como teria que ir para Araraquara anyway, acabei oferecendo uma optativa, batizei de mídia e globalização.
76 alunos se inscreveram. O site já está pronto. Às vezes entro nele, ainda vazio. Em um mês haverá 76 alunos lá. Talvez menos, acho que quando eu explicar o que é o curso, e dizer que não basta ter lido uma vez um artigo na Caros Amigos sobre o assunto, um povo vai sair.
Mesmo assim, 76 me impressionou. Quem são? O que esperam? O que vão exigir de mim, como se assim fazendo exigissem do mundo?
76 vozes, jeitos de escrever, comportamentos em aula. Nunca dei um curso para tanta gente. Juntos, vão virar uma pasta indistinta? Ou ainda haverá o atento do fundo, o radical que não lê os textos, o tímido que desabrocha, a menina enfadada?
Faço contas: se eu mantiver o número de alunos por grupo, periga ter 25 trabalhos para orientar. Assusto eles na primeira aula, digo que o curso reprova? Ou encaro como se fosse um passeio?
Vou fingir que está tudo sob controle. Que quem carrega um arenque carrega um menir. Vou entrar na sala de aula no piloto automático, vou rezar para ter 76 assistentes.
Como teria que ir para Araraquara anyway, acabei oferecendo uma optativa, batizei de mídia e globalização.
76 alunos se inscreveram. O site já está pronto. Às vezes entro nele, ainda vazio. Em um mês haverá 76 alunos lá. Talvez menos, acho que quando eu explicar o que é o curso, e dizer que não basta ter lido uma vez um artigo na Caros Amigos sobre o assunto, um povo vai sair.
Mesmo assim, 76 me impressionou. Quem são? O que esperam? O que vão exigir de mim, como se assim fazendo exigissem do mundo?
76 vozes, jeitos de escrever, comportamentos em aula. Nunca dei um curso para tanta gente. Juntos, vão virar uma pasta indistinta? Ou ainda haverá o atento do fundo, o radical que não lê os textos, o tímido que desabrocha, a menina enfadada?
Faço contas: se eu mantiver o número de alunos por grupo, periga ter 25 trabalhos para orientar. Assusto eles na primeira aula, digo que o curso reprova? Ou encaro como se fosse um passeio?
Vou fingir que está tudo sob controle. Que quem carrega um arenque carrega um menir. Vou entrar na sala de aula no piloto automático, vou rezar para ter 76 assistentes.
domingo, 18 de novembro de 2007
"Putaria"
Lembra-se daquela moda das camisetas pretas, com as palavras "dignidade" ou "respeito" escritas em maiúsculas brancas, sem mais nada, como se fossem statements completos? Respeito para quem, e por que? A quem faltava dignidade, a quem vestia, a quem lia a camiseta ou a um terceiro ausente? Camisetas caras, que ficam bem em gente que faz Pilates.
Eu dava aula num dia desses, naquela turma da noite divertida, quando um aluno fez um comentário muito pertinente. Escutei atenta, como sempre, até que caí na risada: "Turma, olha só esse colega de vocês, olha a camiseta dele, vocês viram? 'Putaria', está escrito 'putaria', olha só."
Era também um statement, sem alvo claro. Putaria era o que ele defendia, era o que ele denunciava? Ele retomou o comentário, eu procurei escutar mas disse, citando Goffman, que a incongruência entre seu figurino e seu texto me fazia cócegas. Contei que na minha época as distribuidoras de petróleo, com medo de estatizações, davam adesivos para vidros com os dizeres: "Petróleo, quem distribui também contribui." O DCE da USP lançou a paródia "Cannabis, quem distribui também contribui." Era aquele restinho da idade da ironia, que começa na terceira série do primário, não se se de acordo com Piaget ou comigo mesma, e tem fim indefinido.
Mas se o adesivo da maconha era meio datado, com toda a violência das drogas e coisa e tal, a camiseta da putaria me parecia bem apropriada. Nossas convicções são rasas, condensáveis em poucas palavras e, especialmente, fáceis de virar do avesso.
Eu dava aula num dia desses, naquela turma da noite divertida, quando um aluno fez um comentário muito pertinente. Escutei atenta, como sempre, até que caí na risada: "Turma, olha só esse colega de vocês, olha a camiseta dele, vocês viram? 'Putaria', está escrito 'putaria', olha só."
Era também um statement, sem alvo claro. Putaria era o que ele defendia, era o que ele denunciava? Ele retomou o comentário, eu procurei escutar mas disse, citando Goffman, que a incongruência entre seu figurino e seu texto me fazia cócegas. Contei que na minha época as distribuidoras de petróleo, com medo de estatizações, davam adesivos para vidros com os dizeres: "Petróleo, quem distribui também contribui." O DCE da USP lançou a paródia "Cannabis, quem distribui também contribui." Era aquele restinho da idade da ironia, que começa na terceira série do primário, não se se de acordo com Piaget ou comigo mesma, e tem fim indefinido.
Mas se o adesivo da maconha era meio datado, com toda a violência das drogas e coisa e tal, a camiseta da putaria me parecia bem apropriada. Nossas convicções são rasas, condensáveis em poucas palavras e, especialmente, fáceis de virar do avesso.
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