Agora não sei mais. A dengue, devemos suspender as aulas? No PCC e na greve fui contra, agora não sei mais. Vale a pena arriscar ser picado para aquelas aulas?
O motim continua, também não sei mais o que fazer. Reclamam se faço concessões, reclamam se não as faço. Bolei exercícios interessantes, busquei explcações. Parece tudo fútil. Parece tudo incerto.
O paradoxo de dar liberdade aos alunos é esse; se eles não gostam da liberdade é difícil ser crítico, é estranho exigir aulas expositivas onde eles não têm lugar. Mas já estou explicando, e na verdade não sei mesmo.
Por que o blog? Também isso não sei.
domingo, 13 de abril de 2008
terça-feira, 8 de abril de 2008
Um Caso Clássico de Conversão
No Mais! desse domingo um relato tão comum sobre um esquerdista arrependido que bem poderia ter sido um recorte-e-cole de outros casos iguais. Com todos os ingredientes de conversão: um olhar acurado sobre a história, uma esposa que não tem papas na língua, uma observação mais atenta sobre o comportamento das pessoas, um cansaço com a mídia de esquerda, umas leituras em economia que nunca caem mal e um rabino sereno que também sempre ajuda.
Li sem interesse, quase por obrigação, não havia nada de novo e muito menos imprevisível.
O único elemento digno de nota era um certo atraso. Lembro que quando o Jarbas de Holanda saiu do PC, contei para meu pai, que me retrucou: "Mas só agora? Fiz isso há 20 anos."
O divertido é uma professora da USP pasma e um ator brasileiro dizendo que a obra transcende o artista. Já desconfiava, mas nunca quis bater o martelo: o pessoal da USP acha que entende mais os autores que os autores. Há no Butantã gente que conhece mais Habermas que o filósofo alemão; mais Heller que a filósofa húngara, e assim por diante. Sobre Mamet, então, o escritor americano deveria dar uma passada aqui no Brasil para, enfim, se entender.
Li sem interesse, quase por obrigação, não havia nada de novo e muito menos imprevisível.
O único elemento digno de nota era um certo atraso. Lembro que quando o Jarbas de Holanda saiu do PC, contei para meu pai, que me retrucou: "Mas só agora? Fiz isso há 20 anos."
O divertido é uma professora da USP pasma e um ator brasileiro dizendo que a obra transcende o artista. Já desconfiava, mas nunca quis bater o martelo: o pessoal da USP acha que entende mais os autores que os autores. Há no Butantã gente que conhece mais Habermas que o filósofo alemão; mais Heller que a filósofa húngara, e assim por diante. Sobre Mamet, então, o escritor americano deveria dar uma passada aqui no Brasil para, enfim, se entender.
A Borduna Democrática
Imagine que em 1986, se não me engano, entrei numa chapa para a UNE, também se não me engano, com os colegas da FEA do último ano, cujos nomes escapam inteiramente de uma memória que os americanos talvez dissessem "overstretched".
A chapa, tenho absoluta certeza, se chamava "A Borduna Democrática". Era no tempo do Sarney.
Sei que você é um leitor amoroso e perspicaz. Tenho vontade de deixar o texto aqui, pois você já entendeu tudo.
Mas explico: Numa escola como a em que dou aula, que é feita à imagem e à semelhança daquela onde você dá aula, ou ao menos teve aulas, só na base da borduna mesmo é que o povo compreende o que é democracia.
Na base do diálogo eles te demolem. Tem que ser firme, bordunamente.
Eu adorava esse nome, "A Borduna Democrática". Mas para entender, levei 20 anos.
Vaz era um dos colegas, lembrei.
A chapa, tenho absoluta certeza, se chamava "A Borduna Democrática". Era no tempo do Sarney.
Sei que você é um leitor amoroso e perspicaz. Tenho vontade de deixar o texto aqui, pois você já entendeu tudo.
Mas explico: Numa escola como a em que dou aula, que é feita à imagem e à semelhança daquela onde você dá aula, ou ao menos teve aulas, só na base da borduna mesmo é que o povo compreende o que é democracia.
Na base do diálogo eles te demolem. Tem que ser firme, bordunamente.
Eu adorava esse nome, "A Borduna Democrática". Mas para entender, levei 20 anos.
Vaz era um dos colegas, lembrei.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Isso caracteriza orientação
"Professora, queria saber se a senhora pode me dizer o que acha do meu projeto antes de eu entregar, ou se isso caracteriza orientação."
Eu contornei o motim, mas as críticas sistemáticas continuavam e eu já considerava jogar a toalha. Então a pergunta humilde da aluna, seguida a uma semelhante colocada na site, me fizeram pensar. Não bem pensar; mais assim lamentar mesmo.
Então não podia caracterizar orientação? O que eu fazia ali além de caracterizar orientação? Que tipo de abuso intelectual haviam sofrido, para achar que o professor não pode caracterizar orientação?
Eles já haviam relatado alguns abusos: absenteísmo, notas aleatórias, depreciação de suas opiniões. Como leões com espinho no pé, rugiam.
Imaginei a cena: um aluno perguntando ao professor como faz alguma coisa. Sei lá o que. Como pesquisa, como faz entrevista, como interpreta; enfim, essas coisas que faz todo estudante. O professor dizendo o absurdo com palavras pomposas: "Ah, olhe só, não posso lhe dizer isso; caracterizar-se-ia orientação!"
Claro, eu havia dito que os trabalhos seriam acompanhados passo a passo. Claro, o site estava disponível exatamente para isso. Mas há coisas que a gente não escuta, não acredita, pois, afinal, isso caracteriza orientação.
Eu contornei o motim, mas as críticas sistemáticas continuavam e eu já considerava jogar a toalha. Então a pergunta humilde da aluna, seguida a uma semelhante colocada na site, me fizeram pensar. Não bem pensar; mais assim lamentar mesmo.
Então não podia caracterizar orientação? O que eu fazia ali além de caracterizar orientação? Que tipo de abuso intelectual haviam sofrido, para achar que o professor não pode caracterizar orientação?
Eles já haviam relatado alguns abusos: absenteísmo, notas aleatórias, depreciação de suas opiniões. Como leões com espinho no pé, rugiam.
Imaginei a cena: um aluno perguntando ao professor como faz alguma coisa. Sei lá o que. Como pesquisa, como faz entrevista, como interpreta; enfim, essas coisas que faz todo estudante. O professor dizendo o absurdo com palavras pomposas: "Ah, olhe só, não posso lhe dizer isso; caracterizar-se-ia orientação!"
Claro, eu havia dito que os trabalhos seriam acompanhados passo a passo. Claro, o site estava disponível exatamente para isso. Mas há coisas que a gente não escuta, não acredita, pois, afinal, isso caracteriza orientação.
quinta-feira, 3 de abril de 2008
Blogs
Disse a professora de um aluno meu: "Internet lá é objeto de estudo? Só tem bobagem."
De fato, tem muita bobagem. Apareceu um link neste blog para um site de vinhos. Gosto de vinho. Gosto de vinho argentino. Mas com a queda dos preços todo mundo se tornou somellier, e diz no blog: "Nunca segure a taça do vinho pelo bojo." Outro dia uma amiga me falou a mesma coisa: "Nunca segure a taça do vinho pelo bojo." O mundo será melhor quando as taças de vinhos forem seguradas pela haste, e pararem de cortar alface.
A professora é que está certa.
De fato, tem muita bobagem. Apareceu um link neste blog para um site de vinhos. Gosto de vinho. Gosto de vinho argentino. Mas com a queda dos preços todo mundo se tornou somellier, e diz no blog: "Nunca segure a taça do vinho pelo bojo." Outro dia uma amiga me falou a mesma coisa: "Nunca segure a taça do vinho pelo bojo." O mundo será melhor quando as taças de vinhos forem seguradas pela haste, e pararem de cortar alface.
A professora é que está certa.
terça-feira, 18 de março de 2008
Mais um motim
Os alunos falaram de todas as suas insatisfações político-pedagógico-metodológico-literário-ético-conceituais ao meu curso, e escutei-os pacientemente por quase uma hora. Justificava serenamente cada atitude questionada. Ao fim, disse, puxa, sabiam que eu não esperava mais um motim na terceira aula, como foi no ano passado?
Eles riram, depois me disseram que a idéia de um motim quebrou o gelo.
Eu me perguntei por que ando indiferente, vendo a classe em polvorosa e enxergando "mais um motim de terceira aula". Sei que ao final vão fazer bons trabalhos e me agradecer, parte envergonhados, parte a contragosto. Essa serenidade, é coisa boa? Ou envelheci?
Mas por que o motim?, me perguntaram as amigas. Bem, em parte sem razão, pois apenas apresentei o curso na primeira aula, discuti um conto de Clarice na segunda e pedi que eles escrevessem uma apresentação pessoal no site para a terceira aula. Aí o motim, às nove da manhã de sexta-feira, aproximadamente.
Em parte, cobertos de razão. Como é que alguém vem e diz que a língua é um instrumento de comunicação, e que a sala de aula pode ser rica, e que eles vão escrever textos bárbaros ao fim do semestre, logo agora no final do curso quando já acreditavam não poder fazer nada, não confiar em ninguém.
Portanto falei coisas indignas. Sem querer abusar da Clarice, tirei a terceira perna e esbravejaram. No conto estudado, uma menina tem uma epifania - cada vez mais detesto essa palavra, o que ela teve em português foi um puta enjôo - por que descobre que o professor acreditou nas tolices dela.
Não foi uma epifania, foi mais um motim mesmo, com líderes de nariz em pé e seguidores mais e menos confiantes. Mas acho que foi como no conto, eu disse que ia acreditar em suas tolices.
Eles riram, depois me disseram que a idéia de um motim quebrou o gelo.
Eu me perguntei por que ando indiferente, vendo a classe em polvorosa e enxergando "mais um motim de terceira aula". Sei que ao final vão fazer bons trabalhos e me agradecer, parte envergonhados, parte a contragosto. Essa serenidade, é coisa boa? Ou envelheci?
Mas por que o motim?, me perguntaram as amigas. Bem, em parte sem razão, pois apenas apresentei o curso na primeira aula, discuti um conto de Clarice na segunda e pedi que eles escrevessem uma apresentação pessoal no site para a terceira aula. Aí o motim, às nove da manhã de sexta-feira, aproximadamente.
Em parte, cobertos de razão. Como é que alguém vem e diz que a língua é um instrumento de comunicação, e que a sala de aula pode ser rica, e que eles vão escrever textos bárbaros ao fim do semestre, logo agora no final do curso quando já acreditavam não poder fazer nada, não confiar em ninguém.
Portanto falei coisas indignas. Sem querer abusar da Clarice, tirei a terceira perna e esbravejaram. No conto estudado, uma menina tem uma epifania - cada vez mais detesto essa palavra, o que ela teve em português foi um puta enjôo - por que descobre que o professor acreditou nas tolices dela.
Não foi uma epifania, foi mais um motim mesmo, com líderes de nariz em pé e seguidores mais e menos confiantes. Mas acho que foi como no conto, eu disse que ia acreditar em suas tolices.
sábado, 1 de março de 2008
Professor tem que explicar bem
... mas às vezes eu esqueço disso. Desta vez expliquei direito na primeira aula o que vou fazer ao longo do semestre, e acho que poupei um bom tempo e muitos problemas com isso.
O estranho é que não é simples você dizer o que vai fazer. Precisei de alguns anos para isso. Depois choveram alunos no intervalo com idéias para os projetos, acho que acertei. Será que esse ano não tem motim??
O processo por plágio continua, já está uma pasta pesada. Impressionante como a burocracia universitária, como um Midas reverso, consegue transformar um plágio documentado em um importúnio ao professor.
O estranho é que não é simples você dizer o que vai fazer. Precisei de alguns anos para isso. Depois choveram alunos no intervalo com idéias para os projetos, acho que acertei. Será que esse ano não tem motim??
O processo por plágio continua, já está uma pasta pesada. Impressionante como a burocracia universitária, como um Midas reverso, consegue transformar um plágio documentado em um importúnio ao professor.
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